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A Morada dos Dias

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

As esquinas do caso Ronaldo

Outubro 04, 2018

O caso Ronaldo, a alegada violação que teria praticado sobre Kathryn Mayorga, cidadã norte-americana, em 2009, na cidade de Las Vegas, é uma excelente oportunidade para se refletir sobre os contornos sociológicos do papel de género e dos efeitos bipolarizados do fenómeno da violação. O apuramento dos factos e o desenrolar do processo judicial serão objeto de exploração sensacionalista por parte dos órgãos de comunicação. O que se espera é que não surta nefasto efeito na clarificação dos acontecimentos e na dedução da verdade. O caso não é evidente. A acusação é séria demais para que as opiniões se baseiem em simpatias. De um modo geral encontramos, neste caso, duas esquinas opostas, nesta fase em que opinar é, ainda, possível, à falta de provas irrefutáveis. De um lado, os que defendendo Cristiano Ronaldo alegarão que Kathryn Mayorga é uma oportunista em busca de protagonismo e dinheiro fácil, e que as imagens da noite revelam intimidade entre ambos, e que a profissão da jovem não era a da mais pura moralidade. Do lado oposto, encontramos o importante movimento #MeToo que incentivou mulheres vítimas de violação e de assédio sexual a denunciarem os casos, revelando, por exemplo, uma Hollywood machista, onde a cultura da coisificação sexual da mulher é aterradora. Nesse sentido, a denúncia face a CR7 seria um vital capítulo no combate à impunidade dos "intocáveis" das nossas sociedades. 

Ora, o problema é que vivemos, hoje, numa sociedade bipolarizada no fenómeno da violação. À medida em que os casos vão sendo tornados públicos, quer envolvendo personalidades públicas, quer da esfera do anonimato social, encontramos um caldo sociológico contendo uma cultura da violação como parte do património desequilibrado das relações entre homens e mulheres.O fenómeno evidencia um histórico social de tensões de poder. O argumento "pôs-se a jeito" é um recurso comum, inclusivamente utilizado por mulheres detentoras de um discurso machista no qual foram socializados, para culpabilizar as vítimas de violação e assédio. O facto de uma mulher trabalhar na noite ou, simplesmente, de se vestir de forma mais sensualizada, é compreendida como um sinal de ausência de pudor e, assim, de provocadora dos homens, os quais, em última análise, estão ilibados de responsabilidade porque se limitaram a responder a impulsos. Em Portugal temos visto como os acórdãos do tribunal do Porto, mas não apenas, pendem negativamente sobre as vítimas, num fenómeno que expõe a moral católica do Estado Novo em evidência. Este contexto é agravado pela detenção de poder económico, social e simbólico por parte de homens, que no exercício das suas funções extrapolam os limites num contexto favorável à impunidade. 

A bipolarização é particularmente evidente nos EUA, onde os fenómenos sociais tendem a ser extremados. Como contraponto à cultura de violação e impunidade tem surgido -- com efeitos sociais muito menores, por enquanto -- uma cultura de medo por parte dos homens, que começam a recear abordar as mulheres sob pena de daí advirem efeitos legais, tornando cada vez mais recorrente a abordagem através de apps destinadas aos encontros amorosos. Com efeito, é muito provável que nos próximos anos, figuras públicas optem por, antes do ato sexual, pedir às parceiras que assinem um termo de consentimento, evitando eventuais casos de burla posterior. Esta situação não é de menor importância, porque quando extremados os lados o meio da razoabilidade fica vazio. O falta é, portanto, uma maturidade ética à sociedade capaz de se despir de quadros morais conservadores e religiosos sobre o papel da mulher e do homem, garantindo a dignidade e a equidade às primeiras, de modo a que a cultura da impunidade, do assédio e da violação não conduzam a encerrar das mulheres em muros de prevenção, cujos efeitos na interação social saudável sejam irrevercíveis. 

Futebol e violência: precisamos dessacralizar os clubes

Março 29, 2018

Os efeitos sociológicos do futebol, a sua utilização estratégica como fator político, cultural e até religioso são sobejamente conhecidos. Gilberto Agostino em Vencer ou morrer: futebol, geopolítica e identidade nacional trata de forma demorada de tais fenómenos, inscrevendo-os na própria dinâmica de fundação dos clubes. Igor Machado, por exemplo, dá-nos conta da forma como os imigrantes brasileiros na cidade do Porto usam o futebol como forma de afirmação anti-local, optando por clubes lisboetas. Outro exemplo da forma estruturante como o futebol atua é apresentada no livro de Bill Murray, The Old Firm: Sectarianism, Sport and Society in Scotland, a partir da rivalidade Celtic x Rangers. 

Ora, apesar de Albert Camus ter afirmado que "Tudo quanto sei com maior certeza sobre a moral e as obrigações dos homens devo-o ao futebol", a ligeireza das coisas mostra-nos que a formação da figura do adepto tem deslizado nas águas do fanatismo, aparecendo como uma versão alternativa do fundamentalismo religioso, apresentando os mesmos padrões. Salomé Marivoet, sociológica que se tem dedicado ao desporto, mostra como a militância e as hostilidades fermentam um cultura de violência nas claques de futebol. Em países como a Ucrânia ou a Inglaterra, as claques mesclam-se com movimentos de extrema-direita de modo particularmente perigoso, apresentando traços de racismo mesmo diante dos jogadores das suas equipas. 

Tudo isto, configura um cenário de representações e projeções em torno dos clubes de futebol, onde fanatismo, devoção e alienação caminham perigosamente juntos. Em Portugal diz-se que "muda-se de sexo, muda-se de cidade, muda-se de mulher, mas não se muda de clube". Há adeptos a referirem-se à camisola dos seus clubes como "manto sagrado". É, por isso, urgente dessacralizar os clubes. Precisamos perceber que um filho ser de outro clube não é o fim do mundo, precisamos abandonar os atos de fé e as guerras santas, abandonar o espírito missionário de levar o clube aos infiéis, precisamos compreender que a vida se compõe de mudança e que mudar de clube é um ato natural. Somos feitos de mudança, de renovação, de contradições. Se é um facto que um clube confere sentido de pertença, cria laços e atua como fator de coesão num grupo, ele também é fator de conflito e radicalismo. É preciso conferir leveza ao ato de ser adepto. 

Dia da Mulher, Sempre Urgente

Março 08, 2018

 

Somos, muitas vezes, convidados ao facilitismo de ver o Dia Internacional da Mulher como uma data cuja comemoração não se justifica numa sociedade ocidental em que as mulheres têm acesso ao mercado de trabalho, à educação, a espaços de lazer, e que até são privilegiadas em bares e discotecas. Esse facilitismo não passa de uma leitura superficial da realidade, um olhar que se horizonta a oriente, onde os direitos elementares das mulheres permanecem restringidos a partir de leituras conservadoras dos postulados religiosos. Contudo, não nos regozijemos por uma separação entre religião e sociedade. Tal não existe. O elevado número de violações e o assédio sexual, resultam de uma atitude social que faz da mulher um objeto social. O citado privilégio em bares e discotecas é, claramente, um sinónimo disso, porque essa prioridade não se baseia numa paridade, mas antes na ideia da mulher enquanto produto de mercado, enquanto objeto de predação sexual. Essa ideia encontra-se reproduzida no desempenho de papéis sexualizados no cinema, em que a percentagem de nu feminino é esmagadoramente superior ao masculino.

Retomando o assédio e o ataque sexual, a crença social de que mulheres arrojadamente trajadas constitui um sinal de disponibilidade permanente para o sexo, um sinal de ausência de decoro e pudor, é produto de uma sociedade em que a religião ainda está presente, ainda impregna a moralidade social. Uma mulher de minissaia “está a pedi-las”. Isto porque o ideal feminino continua a residir, para citar o malfado presidente Temer, o da “mulher recatada e o do lar”, estereótipo mergulhado na figura católica de Maria, mãe de Jesus (1).

Portanto, todo este caldo sociológico produz uma disparidade entre homens e mulheres que se traduz em violência sexual, física e simbólica, em que violência doméstica, em violência salarial e de ascensão profissional. Por regra as mulheres recebem salários menores e ocupam lugares inferiores. Há uma mudança em curso, mas esta é pautada caso a caso. Por isso o feminismo continua tão necessário. Não o feminismo de muitas bloggers portuguesas que, na sua ignorância, confundem empoderamento feminino com violência simbólica da figura masculina, mas antes o feminismo politicamente ativo, o que demanda por igualdade salarial, igualdade de oportunidades, por direito à minissaia dessexualizada. É preciso queimar soutiens sociais.

 

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(1) sobre as transformações do sagrado feminino ler A prostituta sagrada - A face eterna do Feminino, de Nancy Qualls- Corbett.

América: um tiro no bom-senso

Fevereiro 05, 2016

O Estado da Florida aprovou, hoje mesmo, a autorização para que os jovens possam entrar nas universidades armados. Não há como não olhar o facto com apreensão e retirar óbvias conclusões. O imaginário norte-americano precisa das armas para autoconsolidação. No quadro coletivo americano, a bandeira, as armas, Deus, o hot dog e o american football, operam como mnemónicas de consolidação identitária. São, claro, chavões frágeis que mal operam no sentido de criação de identitade e memória coletiva, mas que no quadro político produzem resultados junto do eleitorado conservador da «América profunda», amarrado a valores religiosos e paradigmas de lei armada. O problema maior é que ao procurar afirmar-se e consolidar uma imagem de guardiã da Democracia no mundo, a América vive num vácuo de constrassensos, isto porque a Europa não reconhece a autoridade americana através do modelo de «paz armada». No plano interno, ao nível dos impactos sociais, esta medida é perigosa, ao reproduzir e ampliar a noção de que a lei faz-se pela força, e a segurança pelo recurso ao armamento, quando é demais evidente que o problema reside, precisamente, na militarização da sociedade norte-americana. 

Bárbara, Carrilho e a violência doméstica, en passant

Janeiro 28, 2015

Em matéria do caso Bárbara Guimarães vs Manuel Maria Carrilho, e a propósito do texto de Carla Hilário Quevedo (CHQ) sobre o assunto, abro o tom dizendo que o caso é necessariamente do foro jurídico e não público. Todo o mediatismo -- que revela um aproveitamento jornalístico muito pouco ético -- em redor dos acontecimentos retira a questão do domínio dos factos. O julgamento do caso em praça pública, ou ao menos a discussão do mesmo como «interesse público», tende a deturpar os contextos e a abrir espaço para uma opinião pública orientada, pois como bem diz a Carla as vítimas são silenciosas e coube a Carrilho o aproveitamento do espaço mediático em seu favor. Mais uma razão, então, para o caso não ser objeto mediático. Quem gosta de acompanhar a vida dos outros e opinar sobre ela deve fazê-lo recorrendo aos programas televisivos onde os sujeitos se oferecem para estar na vitrina, como a Casa dos Segredos e outros da mesma natureza. 

Seja como for, e não retirando a razão dos argumentos a CHQ, devo dizer que é perigoso avançar -- ainda que a título opinativo -- com conclusões de que o marido maltratante não ama a mulher. Há todo um caldo sociológico e psicológico envolvido nestes episódios de violência que não pode ser esterilizado. É importante levar em consideração as articulações entre exclusão social e violência doméstica (fatores económicos influenciam, por exemplo, a inversão da violência doméstica, i.e., fazendo de homens vítimas), as alterações aos paradigmas sociais que geram tensões simbólicas e os processos de mudança familiar. Há um mar de questões sociais e psicológicas que importa visitar para compreender o fenómeno, horrendo naturalmente, mas que não permite considerar a ausência de uma noção de amor, ainda que distorcida. 

Boko Haram e a violência na Nigéria ou o que diria Ary dos Santos de tudo isto.

Janeiro 26, 2015

 

Em 1973, às portas da Revolução de Abril do ano seguinte, numa altura em que o Estado Novo sobrevivia a espaços e em cuidados paliativos, o poeta e publicitário Ary dos Santos, escreve "Poeta Castrado, Não!", poema que 30 anos depois viria a ser declamado pelo ator José Raposo no Parque Mayer, com uma intensidade e profundidade inadjetivável, arrancando ao peito a revolta. Numa dada estrofe diz ele que, "De fome já não se fala/- é tão vulgar que nos cansa -/mas que dizer de uma bala/ num esqueleto de criança?". 

Quase meio século depois as palavras de Ary dos Santos ecoam ao norte da Nigéria. O programa ideológico-religioso do Boko Haram é um crime contra a humanidade, silenciado pelo triste facto de que uma morte na Europa vale mais do que cem em África. Não somos, claro, todos iguais. Enquanto o mundo parou para prestar homenagem aos jornalistas do satírico Charlie Hebdo, as notícias sobre a violência levada a cabo por terroristas em nome do Estado Islâmico na Nigéria passam mais depressa do que o noticiário desportivo. Há mais interesse numa conferência de imprensa de Jorge Jesus do que nas vidas ceifadas em África, onde a morte parecer ser "tão vulgar que nos cansa", mesmo a própria "bala num esqueleto de criança". 

Por isso compreendemos que a história é, toda ela, feita de mortes caladas. Do escravo de Camões não reza a história, e enquanto os "heróis" do Hebdo são imortalizados em acontecimentos mediáticos, na Nigéria morre-se no anonimato, não há heróis, só corpos deixados ao chão tingido de sangue. Afinal vai-se revelando claro: who cares about Africa?