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A Morada dos Dias

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

O Cheiro do VOX

Novembro 27, 2019

Em Espanha era consensual, da esquerda à direita, a necessidade de combate à violência sobre as mulheres. Era matéria sobre a qual todos os partidos estavam de acordo, havendo uma expressão de unanimidade. Havia. Porque este ano o VOX colocou-se à margem do tema. Quem simpatiza com o VOX -- como Nuno Melo, e de onde o Chega retira inspiração -- deve ter isto em conta e fazer a devida reflexão se o medo do multiculturalismo é mais forte do que os valores da democracia. Desengane-se quem acredita que o VOX, tal como o Chega, veio para acrescentar valor à democracia. O ar que traz é bafiento. Cheira a ditadura, cheira a patriarcado e machismo, cheira a homofobia, cheira a racismo, cheira a antiparlamentarismo, cheira a antipluralismo.

As Filhas de Medusa, ou de como a sociedade odeia as mulheres

Fevereiro 22, 2019

Vivemos um tempo em que se banalizou e instrumentalizou o conceito de «politicamente correto», associando-o a uma espécie de conspiração política, com origem na Esquerda, mas que teria contaminado o centro-esquerda e o centro-direita, a qual visa a destruição do modelo social em vigência. O problema é que esta narrativa nada mais é do que uma manipulação ideológica que articula memórias individuais e aspirações nostálgicas acerca de um passado idealizado.

Nesse quadro, um dos aspetos que essa narrativa sobre o politicamente correto ataca é o do feminismo, jamais o aceitando como uma ação política de um empoderamento feminino absolutamente necessário e concordante com a Agenda 2030 da ONU, mas antes como um movimento perigoso para o equilíbrio da sociedade, um ataque aos “bons costumes” e produto de uma histeria de mulheres feias que odeiam os homens, para lembrar as palavras da ministra brasileira da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves.

Ora, é com este quadro ideológico que se embaça o problema da violência doméstica, do desequilíbrio entre homens e mulheres no mercado de trabalho e da violência sexual e simbólica. Os números da violência sobre as mulheres são gritantes. 2019 começou há dias e já onze mulheres foram assassinadas em decorrência de violência doméstica, em Portugal. Temos visto como os acórdãos do tribunal tendem a pesar de forma negativa e gravosa sobre as mulheres vítimas de violência doméstica e/ou sexual. Não basta um juiz suavemente punido para que o problema desapareça, é preciso que a leitura restrita da Lei como derivada do costume seja revista, pois se há coisa que as ciências sociais ensinam é que as sociedades são mutáveis e que os valores estão em permanente revisão, negociação e justaposição.

Nesse contexto, o fenómeno da violação é, por ventura, o mais gritante, expondo de forma particularmente evidente um caldo sociológico marcado pela tensão entre independência feminina e património cultural-religioso, onde a relação entre homens e mulheres ainda se encontra desequilibrada. Trata-se de uma ocorrência criminal na qual a vítima é socialmente culpabilizada. Nesses termos, as mulheres são menos filhas de Maria e mais de Medusa, divindade grega condenada a possuir cobras no lugar do cabelo depois de ter sido violada por Poseidon. Vemos como a mitologia acompanha as disposições sociais. Infelizmente, a herança cultural e religiosa pesa sobremaneira na forma como são percebidos os fenómenos sociais, como se concebe a moralidade social e a própria lei é interpretada. Em Portugal vivemos, ainda, com o espetro da moralidade do Estado Novo, debatendo-nos com as desigualdades entre homens e mulheres que ali foram solidificadas, glorificando a mulher do lar, dos afetos contidos, da autovigilância, sendo capaz de prever os ímpetos masculinos e os evitar. O argumento "pôs-se a jeito" é um recurso comum, inclusivamente utilizado por mulheres detentoras de um discurso machista no qual foram socializadas, para culpabilizar as vítimas de violação e assédio. O facto de uma mulher trabalhar na noite ou, simplesmente, de se vestir de forma mais sensualizada, é compreendido como um sinal de ausência de pudor e, assim, de provocação dos homens, os quais, em última análise, estão ilibados de responsabilidade porque se limitaram a responder a impulsos físicos. Neste horizonte, a liberdade permanece património masculino. Seja pela minissaia, seja porque subiu a quarto, ou porque disse “não quando queria dizer sim”, ou, tão simplesmente porque estava inconsciente pelo que não ofereceu resistência, a mulher violada é sempre socialmente culpabilizada pela sua própria condição de vítima. Mais, essa mesma condição é-lhe negada, restando-lhe a posição eterna da mulher passível de ser apedrejada publicamente ou condenada a ter cobras na cabeça para a eternidade.

Enquanto não tivermos uma sociedade que produza o corte com o património moral judaico-cristão, e dotada de verdadeiras políticas de empoderamento feminino, capacitando as mulheres para encontrarem, pelos seus próprios meios, a sua independência e sustentabilidade económica, retirando-as, definitivamente, de situações de subalternidade familiar, doméstica, social e profissional, continuaremos a condenar Medusa à eternidade das serpentes.

Dia da Mulher, Sempre Urgente

Março 08, 2018

 

Somos, muitas vezes, convidados ao facilitismo de ver o Dia Internacional da Mulher como uma data cuja comemoração não se justifica numa sociedade ocidental em que as mulheres têm acesso ao mercado de trabalho, à educação, a espaços de lazer, e que até são privilegiadas em bares e discotecas. Esse facilitismo não passa de uma leitura superficial da realidade, um olhar que se horizonta a oriente, onde os direitos elementares das mulheres permanecem restringidos a partir de leituras conservadoras dos postulados religiosos. Contudo, não nos regozijemos por uma separação entre religião e sociedade. Tal não existe. O elevado número de violações e o assédio sexual, resultam de uma atitude social que faz da mulher um objeto social. O citado privilégio em bares e discotecas é, claramente, um sinónimo disso, porque essa prioridade não se baseia numa paridade, mas antes na ideia da mulher enquanto produto de mercado, enquanto objeto de predação sexual. Essa ideia encontra-se reproduzida no desempenho de papéis sexualizados no cinema, em que a percentagem de nu feminino é esmagadoramente superior ao masculino.

Retomando o assédio e o ataque sexual, a crença social de que mulheres arrojadamente trajadas constitui um sinal de disponibilidade permanente para o sexo, um sinal de ausência de decoro e pudor, é produto de uma sociedade em que a religião ainda está presente, ainda impregna a moralidade social. Uma mulher de minissaia “está a pedi-las”. Isto porque o ideal feminino continua a residir, para citar o malfado presidente Temer, o da “mulher recatada e o do lar”, estereótipo mergulhado na figura católica de Maria, mãe de Jesus (1).

Portanto, todo este caldo sociológico produz uma disparidade entre homens e mulheres que se traduz em violência sexual, física e simbólica, em que violência doméstica, em violência salarial e de ascensão profissional. Por regra as mulheres recebem salários menores e ocupam lugares inferiores. Há uma mudança em curso, mas esta é pautada caso a caso. Por isso o feminismo continua tão necessário. Não o feminismo de muitas bloggers portuguesas que, na sua ignorância, confundem empoderamento feminino com violência simbólica da figura masculina, mas antes o feminismo politicamente ativo, o que demanda por igualdade salarial, igualdade de oportunidades, por direito à minissaia dessexualizada. É preciso queimar soutiens sociais.

 

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(1) sobre as transformações do sagrado feminino ler A prostituta sagrada - A face eterna do Feminino, de Nancy Qualls- Corbett.

Bárbara, Carrilho e a violência doméstica, en passant

Janeiro 28, 2015

Em matéria do caso Bárbara Guimarães vs Manuel Maria Carrilho, e a propósito do texto de Carla Hilário Quevedo (CHQ) sobre o assunto, abro o tom dizendo que o caso é necessariamente do foro jurídico e não público. Todo o mediatismo -- que revela um aproveitamento jornalístico muito pouco ético -- em redor dos acontecimentos retira a questão do domínio dos factos. O julgamento do caso em praça pública, ou ao menos a discussão do mesmo como «interesse público», tende a deturpar os contextos e a abrir espaço para uma opinião pública orientada, pois como bem diz a Carla as vítimas são silenciosas e coube a Carrilho o aproveitamento do espaço mediático em seu favor. Mais uma razão, então, para o caso não ser objeto mediático. Quem gosta de acompanhar a vida dos outros e opinar sobre ela deve fazê-lo recorrendo aos programas televisivos onde os sujeitos se oferecem para estar na vitrina, como a Casa dos Segredos e outros da mesma natureza. 

Seja como for, e não retirando a razão dos argumentos a CHQ, devo dizer que é perigoso avançar -- ainda que a título opinativo -- com conclusões de que o marido maltratante não ama a mulher. Há todo um caldo sociológico e psicológico envolvido nestes episódios de violência que não pode ser esterilizado. É importante levar em consideração as articulações entre exclusão social e violência doméstica (fatores económicos influenciam, por exemplo, a inversão da violência doméstica, i.e., fazendo de homens vítimas), as alterações aos paradigmas sociais que geram tensões simbólicas e os processos de mudança familiar. Há um mar de questões sociais e psicológicas que importa visitar para compreender o fenómeno, horrendo naturalmente, mas que não permite considerar a ausência de uma noção de amor, ainda que distorcida.