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O Estado dos Dias

«O dia precedente é o mestre do dia seguinte.» - Píncaro

Fardas e Fardados

21
Nov22
A questão do ódio racial nas forças de autoridade não é de somenos importância, nem deve ser tratada de ânimo leve. Precisamos ter presente, em primeiro lugar, que se trata de agentes armados e com o monopólio da violência no espaço público, em nome do Estado. Nesse sentido, é preciso ter absoluta confiança no cumprimento do dever e no respeito pelos cidadãos e os seus direitos. Isto significa, quer queiramos ou não, formar bons agentes, e isso passa por um investimento que começa nas escolas e academias e acaba na qualidade das instalações, segurança laboral e condições salariais.

Portanto, o número de agentes ligados a discursos e crenças racistas, misóginas e outros preconceitos é um problema estrutural, não pela quantidade, mas antes pela questão do monopólio da violência e porque reflete um problema de fundo nas sociedades ocidentais: o ressentimento e o estigma são ferramentas de autosatisfação e pertença, porque se baseiam num ódio a um outro que se encontra abaixo na escala social.

É, pois, necessário consciencializar os agentes da situação de pobreza e semelhança por parte de muitas pessoas dos bairros carenciados. Isto não significa que os agentes não devam atuar. Devem. Devem deter quem não cumpre a lei. Mas devem agir, também, de modo proporcional e com sensibilidade, não com base em preconceitos e ódios prévios.

Assim, tão urgente quando purgar as forças de autoridade destas pessoas é garantir condições dignas para o exercício da profissão, formando bons agentes. Porque a ideia de um Estado sem forças de segurança pública é uma utopia.

Minneapolis

30
Mai20

Apesar de compreender e solidarizar-me com a raiva e a saturação face à impunidade, à injustiça e ao racismo estrutural, não acredito em ganhos reais pela via da destruição. Nenhuma luta se ganha sem um apoio generalizado. É preciso, infelizmente, convocar continuamente as consciências públicas. Ganhar a simpatia, mesmo em causas que deveriam ser por si mesmas. A lógica é simples - se a sua propriedade estiver ameaçada no meio de uma luta, mesmo que legítima, as pessoas não darão o seu apoio, mas acabarão por estar ao lado do status quo, não por pactuarem com as marginalidades que esse estado de situação representa, mas porque são lesadas pela reivindicação. É preciso compreender isso, também. Uma greve é eficaz pelo efeito económico da paralisação, não quando se acompanha de destruição. Trabalhadores que destroem uma fábrica para onde querem voltar com melhores salários, que ganho têm com isso?
Por isso, acredito na tomada da rua de forma pacífica. Acredito que um movimento de paralisação da comunidade afrodescendente nos EUA traria efeitos económicos devastadores superiores à destruição de propriedade. Acredito num ganho maior pela tomada da rua de forma silenciosa, se em cada espaço de poder e justiça (tribunais, câmaras municipais, etc) permanecessem grupos acampados, se atletas afrodescendentes se recusassem a jogar, se juízes negros se recusassem julgar, e gestos similares tivessem lugar. Em pouco tempo não afrodescendentes adeririam à luta. Uma luta que é feita em nome da justiça, da democracia.