Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A Morada dos Dias

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

A ideologia da farda

Janeiro 23, 2020

André Ventura é um político arguto. A forma como tratou o caso Cláudia Simões é paradigmático da sua capacidade de recompor os factos em favor do argumento que lhe é eleitoralmente favorável e concordante com a sua ideologia securitária. Há muito que percebemos que ele confia nas forças policiais para fazer-se eleger e, eventualmente, fazer crescer o partido. É um eleitorado que conquistado, sentido que tem voz política, se manterá fiel. Por isso, mais do que se colocar ao lado do agente da PSP, arrolou um argumentário de natureza negacionista e conspiratório. Fazer crer que tudo foi uma encenação é um desrespeito pelas partes e um convite à criação de fábulas sociais perigosas. Dúvidas houvessem é seguir as caixas de comentários das notícias e o chorrilho de ataques raciais que são proferidos. Reconhecer que as forças de autoridade pública atravessam uma circunstância profissional deficitária não impede que vejamos uma situação de abuso de autoridade e força desproporcional, nem tão pouco que se reconheça que há um problema nos testes psicológicos e seleção no acesso à carreira, motivados pela falta de candidatos.

O caso Cláudia

Janeiro 19, 2020

Temos, naturalmente, duas versões dos acontecimentos. O estado em que ficou a detida invoca uma situação de abuso de poder e violência policial e atropelo aos direitos. A atitude do motorista revela uma disposição racista perigosa para o exercício das suas funções. Nada obsta que 1. Tenham ocorrido agressões verbais ao agente e algumas altercações que não estão registadas. 2. Que a detida ao ver-se numa situação desproporcional de força tenha reagido. Não estamos na posse de todos os factos, mas isso não impede que vislumbrar um caso de abuso de autoridade e desproporcional uso de força. Quando sabemos os poderes infiltrados nas forças de segurança pública ficamos desconfiados. Esperemos que tudo seja esclarecido e a situação alvo de medidas legais e exemplares. Seja como for, no quadro em que vivemos nada ficará verdadeiramente solucionado. As forças de segurança voltar-se-ão ainda mais para o lado de quem lhes dá voz, e quem se considera (muitas vezes justamente) alvo de abuso de poder continuará a desconfiançar daqueles que devem zelar pela sua segurança. Infelizmente temos cada vez menos posições de consenso. O número de comentários racistas na notícia é gritante. O SOS Racismo faz e bem o seu papel. Os partidos políticos devem esperar pelo apuramento dos factos antes de pegarem nas bandeiras e partirem para o fomento da desordem social.

Violência Policial

Maio 18, 2015

 Há coisas que passam meio sem se dar grande importância mas cuja relevância não é de menosprezar. A violência policial que se fez notar em protestos na escadaria da Assembleia da República não se fez acompanhar de produção de culpa e castigo. Ontem, em Guimarães, a violência policial não poupou pais com crianças nem quem por ali passava, foi uma violência indiscriminada e cega. As imagens de uma criança em total desespero perante a carga policial desnecessária que foram alvo o seu pai e avô foram revoltantes e não são de fácil afastamento. O trauma que o acontecimento produz não se apaga. Mas a culpa vai-se diluir. Os níveis de democracia de um país também se avaliam assim. Há fantasmas de regime a vigorar na gestão das forças de autoridade, que ora não têm meios ora não se fazem rogados na distribuição da violência.