Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A Morada dos Dias

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

04
Jun20

O fardo de Floyd foi não ter farda

A propósito do homicídio de George Floyd, escreve André Ventura no Twitter que com ele ofender polícias vai-se acabar. Isto do nós contra eles é uma maravilha. E eu a pensar que a polícia era um dos garantes da dignidade dos cidadãos. Não que discorde da necessidade de respeito pelas forças de segurança, bem como do reforço de meios e condições, mas será que o candidato-a-tudo também pretende acabar com a corrupção, crime e violência policiais ou o seu propósito é instaurar um estado policial onde as forças de segurança pública sejam inimputáveis? Onde é que já vimos isto?

30
Mai20

Minneapolis

Apesar de compreender e solidarizar-me com a raiva e a saturação face à impunidade, à injustiça e ao racismo estrutural, não acredito em ganhos reais pela via da destruição. Nenhuma luta se ganha sem um apoio generalizado. É preciso, infelizmente, convocar continuamente as consciências públicas. Ganhar a simpatia, mesmo em causas que deveriam ser por si mesmas. A lógica é simples - se a sua propriedade estiver ameaçada no meio de uma luta, mesmo que legítima, as pessoas não darão o seu apoio, mas acabarão por estar ao lado do status quo, não por pactuarem com as marginalidades que esse estado de situação representa, mas porque são lesadas pela reivindicação. É preciso compreender isso, também. Uma greve é eficaz pelo efeito económico da paralisação, não quando se acompanha de destruição. Trabalhadores que destroem uma fábrica para onde querem voltar com melhores salários, que ganho têm com isso?
Por isso, acredito na tomada da rua de forma pacífica. Acredito que um movimento de paralisação da comunidade afrodescendente nos EUA traria efeitos económicos devastadores superiores à destruição de propriedade. Acredito num ganho maior pela tomada da rua de forma silenciosa, se em cada espaço de poder e justiça (tribunais, câmaras municipais, etc) permanecessem grupos acampados, se atletas afrodescendentes se recusassem a jogar, se juízes negros se recusassem julgar, e gestos similares tivessem lugar. Em pouco tempo não afrodescendentes adeririam à luta. Uma luta que é feita em nome da justiça, da democracia.

23
Jan20

A ideologia da farda

André Ventura é um político arguto. A forma como tratou o caso Cláudia Simões é paradigmático da sua capacidade de recompor os factos em favor do argumento que lhe é eleitoralmente favorável e concordante com a sua ideologia securitária. Há muito que percebemos que ele confia nas forças policiais para fazer-se eleger e, eventualmente, fazer crescer o partido. É um eleitorado que conquistado, sentido que tem voz política, se manterá fiel. Por isso, mais do que se colocar ao lado do agente da PSP, arrolou um argumentário de natureza negacionista e conspiratório. Fazer crer que tudo foi uma encenação é um desrespeito pelas partes e um convite à criação de fábulas sociais perigosas. Dúvidas houvessem é seguir as caixas de comentários das notícias e o chorrilho de ataques raciais que são proferidos. Reconhecer que as forças de autoridade pública atravessam uma circunstância profissional deficitária não impede que vejamos uma situação de abuso de autoridade e força desproporcional, nem tão pouco que se reconheça que há um problema nos testes psicológicos e seleção no acesso à carreira, motivados pela falta de candidatos.

19
Jan20

O caso Cláudia

Temos, naturalmente, duas versões dos acontecimentos. O estado em que ficou a detida invoca uma situação de abuso de poder e violência policial e atropelo aos direitos. A atitude do motorista revela uma disposição racista perigosa para o exercício das suas funções. Nada obsta que 1. Tenham ocorrido agressões verbais ao agente e algumas altercações que não estão registadas. 2. Que a detida ao ver-se numa situação desproporcional de força tenha reagido. Não estamos na posse de todos os factos, mas isso não impede que vislumbrar um caso de abuso de autoridade e desproporcional uso de força. Quando sabemos os poderes infiltrados nas forças de segurança pública ficamos desconfiados. Esperemos que tudo seja esclarecido e a situação alvo de medidas legais e exemplares. Seja como for, no quadro em que vivemos nada ficará verdadeiramente solucionado. As forças de segurança voltar-se-ão ainda mais para o lado de quem lhes dá voz, e quem se considera (muitas vezes justamente) alvo de abuso de poder continuará a desconfiançar daqueles que devem zelar pela sua segurança. Infelizmente temos cada vez menos posições de consenso. O número de comentários racistas na notícia é gritante. O SOS Racismo faz e bem o seu papel. Os partidos políticos devem esperar pelo apuramento dos factos antes de pegarem nas bandeiras e partirem para o fomento da desordem social.

18
Mai15

Violência Policial

 Há coisas que passam meio sem se dar grande importância mas cuja relevância não é de menosprezar. A violência policial que se fez notar em protestos na escadaria da Assembleia da República não se fez acompanhar de produção de culpa e castigo. Ontem, em Guimarães, a violência policial não poupou pais com crianças nem quem por ali passava, foi uma violência indiscriminada e cega. As imagens de uma criança em total desespero perante a carga policial desnecessária que foram alvo o seu pai e avô foram revoltantes e não são de fácil afastamento. O trauma que o acontecimento produz não se apaga. Mas a culpa vai-se diluir. Os níveis de democracia de um país também se avaliam assim. Há fantasmas de regime a vigorar na gestão das forças de autoridade, que ora não têm meios ora não se fazem rogados na distribuição da violência. 

(em reforma) BLOGS AOS MOLHOS //  A Terceira Noite | Absorto | Adufe | Almanaque Republicano | Aparências do Real | Aspirina B | A Origem das Espécies | Barbearia Sr. Luis | Blasfémias | Blogoperatório | Bomba Inteligente | Causa Nossa | Corta-Fitas | Crónicas da Terra | Da Literatura | Delito de Opinião | Der Terrorist | desNorte | Dias com Árvores | Esmaltes e Jóias | Esquerda Republicana | Blues For Alice | Geração de 60  | Incursões | Indústrias Culturais | J.P.Coutinho |  Jorge Vaz Nande | Ladrões de Bicicletas | Lauro António Apresenta… | Ler BD | Miniscente | O Insurgente | Ortografia do Olhar | O Jumento | O Grande Zoo | Poesia | Poesia Distribuida | Puxa-Palavra | Quarta Republica | ruitavares.net | Sorumbático | Teatro Anatómico | Tempo Contado  | UmBlogSobreKleist | Voz do Deserto | 2 Dedos de Conversa  BLOGS COM AÇÚCAR NA VOZ // Alfarrabio | Leituras do Dia | Paulinho Assuncao | Farofafá | Prosa Caotica | Rafael Galvao |