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Dias Assim

Um rio sem corrente e o fantasma da Páscoa passada


11.05.21

— UM RIO SEM CORRENTE E O FANTASMA DA PÁSCOA PASSADA — Passos de coelho fazem-se ouvir nos corredores do número 9 da Rua de São Caetano, em Lisboa, sede do Partido Social-Democrata. É o fantasma da Páscoa passada, quando o partido governava o país em dificuldades, e qual Peter Rabbit, personagem da literatura e da animação infantil, o Primeiro-Ministro foi buscar fundos à horta europeia. A viragem da página da austeridade do governo de António Costa em «geringonça» e em pandemia, trouxe sérias dificuldades ao novo líder do PSD, Rui Rio, que depois de ter anunciado um banho de ética na política nacional e uma guinada do partido ao centro-esquerda, encontrou no caminho duas noivas: uma que com ele não quer casar, porque vai conseguindo manter o mapa rosa nas intenções de voto, e por isso está melhor solteira, com pretendentes e potenciais noivos à esquerda e à direita, e outra cujo possível matrimónio é uma vergonha para a família. Não sendo capaz de ser rei sozinho, a Rui Rio pouco lhe tem restado do que se deixar seduzir pela voz da sereia do populismo, aceitando uma Suzana Garcia que abomina o BE e o Chega, mas não ao ponto de se recusar a seguir o manual do bom populista, com um discurso messiânico, um tom de voz inflamado, um perfil de quem vem purificado, longe da carreira política e pronto a ser a voz do povo esquecido; e chamando um ex-craque e ex-selecionador nacional de futebol, António Oliveira, para concorrer à Câmara Municipal onde o Futebol Clube do Porto tem o seu centro de estágio, fazendo contas ao eleitorado “azul-e-branco”.

Com a ameaça de perda de importância política, a liderança de Rui Rio estará sempre a escrutínio. As próximas eleições autárquicas irão ajudar a fazer contas ao futuro do partido e da liderança. Antevendo tempos difíceis muitos olham para o passado à procura de um salvador. Passos de coelho ouvem-se no sótão de Rui Rio. Mas os órfãos de Pedro Passos Coelho serão assim tantos? O “passismo” será, de facto, uma nostalgia política com mais-valia eleitoral quando tão facilmente permitirá à oposição invocar os “anos negros da troika”? Esta nostalgia é, acima de tudo, sintoma de uma incapacidade do partido se apresentar como alternativa ao atual governo e a urgência de o fazer. Sucede que tirando na franja eleitoral do Chega, André Ventura é uma persona non grata para a maioria do eleitorado português e tóxico o suficiente para afastar eleitores do PSD.

O futuro do centro-direita é jogado no PSD, e é este o mais importante ativo para estancar o avanço da extrema-direita e da nova direita populista. Uma aliança com o Chega poderá ser boa a curto prazo para efeitos de contabilização de votos e formação de um acordo de governação, e até pode diluir o radicalismo do Chega, já que André Ventura é, apenas, alguém com um único princípio inderrogável: o poder a todo o custo. Todavia, nada garante um futuro ao PSD além desse caminho dos práticos. Ao mesmo tempo, um regresso de Pedro Passos Coelho não traduz uma nova política para o partido, mas antes um regresso a um lugar ainda com cheiro das batalhas travadas. No entanto, aqueles que desejam o regresso de Passos Coelho parecem ser aqueles para quem um beijo ao Chega não é assim tão penoso.

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Dias Assim é um blogue de João Ferreira Dias, escrito segundo o Acordo Ortográfico, de publicação avulsa e temática livre. Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.

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